O barro amassado com os pés, em passos cadenciados.  A massa que veda a parede da futura morada, sincronizados por sopapos de mãos solidárias, ritmados por cânticos tradicionais. No fogão de trempe (panelas apoiadas em pedras no chão) o almoço de recompensa fumega, à espera do trabalho dos camaradas, que vieram de todos os ranchos ajudar a construção de um novo lar, a nova casa caiçara de pau-a-pique.

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Hoje rara, restrita a alguma construção em praias distantes ou em paredes internas de casarões tombados, a casa de taipa de mão, taipa de sopapo ou mais comumente, pau-a-pique, era a construção usual das gentes praianas.

Como disse Lucio Costa, “[…] feitas de ‘paus’ do mato próximo e da terra do chão… servem de abrigo para toda a família. É o chão que continua… mas justamente por isso, por ser coisa legítima da terra, tem para nós arquitetos, uma significação respeitável e digna.”

Oferecia conforto ambiental adequado, em dias de calor ou de frio. O chão batido era mantido pelo pisar cotidiano e pelo espalhar das brasas do fogão à lenha, para ficar liso e durável, varrido com palhas aromáticas do quintal. Portas e janelas com tábuas lavradas, que permitiam luz apenas pelas suas frestas.

Sua construção era feita, via de regra, em mutirão, com o auxílio de parentes e vizinhos. Sua feitura era embasada por vasto conhecimento empírico, que vinha desde a coleta da madeira (em lua minguante), do barro e da composição da argamassa.

A trama das varas verticais e horizontais que agregariam o barro eram amarradas com cipós (embiras ou guanxumas) e travadas em peças largas de madeira, com os espaços das portas e janelas já previstos.

Parede pronta, vinha o banho alvo de cal, e algum tom azul ou ocre para caixilhos e em numa faixa próxima ao chão, para disfarçar o respingo do barro com a chuva.

Após a casa feita vinha a recompensa: o almoço oferecido pelo novo morador, regado a alguma caninha e muita animação. Seria a ‘festa da cumeeira’, na música de Tom Jobim, ou por que não, o churrasco do ‘bater da laje’ dos dias de hoje, da qual muitos de nós participamos. Mudam-se os materiais, mas ainda se mantêm a solidariedade e a alegria pelo novo lar.

Legenda da foto: Construção de casa de pau a pique (Foto: Agnello Ribeiro dos Santos. Acervo: Arquivo Histórico de São Sebastião)

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