A coluna passada comentou sobre o clima doido na semana da Congada. Pois São Benedito não teve força para domá-lo e a abertura da festa, no fim da tarde da sexta-feira, dia 17 de maio, aconteceu embaixo de chuva.

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A beleza do levantamento do mastro está na participação popular. As pessoas andam junto com os congueiros e com eles partilham a tarefa de carregar o mastro. A multidão envolve os devotos e se emociona ao ver subir o estandarte de São Benedito.

E mesmo sob aguaceiro, não se arrefeceu a fé popular. Pois a população tomou a rua em procissão ordenada e silenciosa.

Infelizmente, silenciosa não foi a fuzilaria de rojões no terraço da igreja matriz. Foi proibido o uso de fogos de artifício barulhento na Ilha; porém, ele é permitido nas festas religiosas.

Não dá para entender como os vereadores aprovaram uma lei que autoriza alguns a já a violarem de antemão. Por que as festas religiosas podem perturbar tanto? Será que Deus é surdo e precisamos berrar azucrinando a vida dos outros para atrair sua atenção? É certo ter prioridade quem festeja religião atropelando o ateu e o agnóstico? O que justificaria a criação desses cidadãos de segunda classe – os que foram proibidos de estourar rojão barulhento?

Seria risível, não fosse lastimável. Lembra a lei que pretendem aprovar os deputados criminalizando a homofobia. Só que nas igrejas ela não vale. E lá poderão então os pregadores de má ocasião achincalhar os homossexuais à vontade…

Aqueles que defendem a barulheira a justificam invocando a tradição. Se esquecem de que ela não é imutável; os costumes mudam e evoluem conforme a sociedade se transforma. Lição essa básica em qualquer tratado de sociologia, campo fértil de conhecimento ora imbecilmente desprezado. E mudança melhor é respeitar não somente os demais humanos que não merecem ser atormentados por estrondo de rojão estourando os tímpanos, mas respeitar também o meio ambiente, onde tantos animais domésticos e silvestres sofrem enorme estresse por causa da barulhada.

O sofrimento dos cães e pássaros é de sangrar o coração e as pessoas endurecidas pela vida que não se compadecem com o mal estar alheio podem, ao menos, com a aflição dos seus bichos de estimação se condoer.

São Benedito tão acostumado à paz do mosteiro, haveria de concordar que essa algazarra tamanha mais nos aproxima da baderna do inferno do que da bem-aventurança do céu.

O encanto maior da devoção não repousa nessa violência estúpida contra o sossego da Vila e sim no caminhar respeitoso e sem gritaria dos que acompanham o pesado mastro de São Benedito sendo carregado pelas ruas até o seu destino final na Praça Alfredo Oliani.

Barulho muito maior que o dos rojões estourados às dezenas foi o do deslizamento de encosta no sul da Ilha causando uma tragédia repercutida em rede nacional na TV. E com ela ainda fresca, teve muita gente que acreditou estar vivendo nova tragédia. O exército fez treinamento no Morro dos Mineiros como se lá fosse o Morro do Alemão. E tome tiro pra tudo quanto é lado derrubando povo da cama de madrugada o pondo em desespero. Ainda bem que eram de festim e ninguém se machucou nem morreu como acontece no Rio de Janeiro.

Ilhabela, tão pródiga em se vender para o mundo como paradisíaca a despeito de incongruências crônicas que o turista perspicaz logo percebe, tais como a sua falta de saneamento básico em pleno século 21 tornando poluídas quase todas as suas praias no pico da temporada, a absurda desigualdade social que coloca lado a lado a miséria e a ostentação, o crescimento desordenado implicando em favelização que por sua vez ocasiona queda de barraco em área de risco durante as torrenciais chuvas de março, etc etc que a lista é longa, poderia aproveitar esse acontecimento para vender um novo atrativo turístico. A excursão turística de cidadãos ditos de bem, armados – sem fuzil, infelizmente porque mexeram no decreto recém promulgado e proibiram – mas de revólver, pistola e espingarda para varrerem o Morro dos Mineiros em operação miliciana de caça a bandidos fazendo valer o ditado “bandido bom é bandido morto”. Não os encontrando, mate-se então comunista ou petista. Como todavia essa espécie de gente anda em vias de extinção por ter sido tão acossada ultimamente, vai sobrar a alternativa corriqueira de assassinar quem é mais morto mesmo na pátria amada Brasil: negro & pobre.

Agora, falando sério, porque para quem não percebeu, essa sugestão do parágrafo anterior foi alucinação estimulada pela prática de humor impróprio. Que faz rir com vergonha como temos rido nesses nossos intermináveis dias de desgoverno. Pois então, agora, falando sério, essa queda de morro na Piúva derrubando junto várias casas e interditando a estrada mais esse tiroteio noutro morro vão inspirar o título desta Foto em Foco: “O Rio de Janeiro é aqui”.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio é artista plástico, trabalhando com desenho, gravura, pintura e fotografia. Fez trinta e sete individuais, cinco delas no exterior. Participou de mais de uma centena de certames internacionais de gravura e foi premiado na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières ( Canadá ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 11ª Bienal de San Juan del Grabado Latinoamericano y del Caribe ( Porto Rico ), na 3rd International Biennial Racibórz 2000 Poland ( Polônia ), na The 3rd International Mini Print Cluj-Napoca ( Romênia ), no 3º Concurso Internacional de Mini Grabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na 5ª Bienal Nacional de Grabado en Relieve – 1ª Iberoamericana XYLON Argentina, na III Bienal Argentina de Gráfica Latinoamericana 2004, na 1st International Small Engraving Salon Inter-Grabado 2005 ( Uruguai ), na 2ª e na 3ª Muestra Internacional de Miniprint en Rosário ( Argentina ). No Brasil foi premiado em quarenta e cinco ocasiões, entre elas, no 10° Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 3º Salão Victor Meirelles, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, na II Bienal da Gravura, no 2º Salão SESC de Gravura, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na 4ª Bienal de Gravura de Santo André, na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e premiado nos Programas de Ação Cultural do governo do estado de São Paulo – ProAcs Edital de 2008, 2010 e 2011 e ProAc ICMS de 2013.

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