Um artista genuinamente caiçara, reconhecido internacionalmente, Giba Ilhabela leva o nome do município pelo mundo há 50 anos. Autodidata, o pintor cria obras que variam do desenho com técnicas mistas até o reconhecido estilo naif, passando por influências do ilusionismo fantástico e do abstrato, hoje, tem seu estilo próprio e legitimado em meio à nata da arte internacional. Nascido Gilberto Gomes Pinna, completou 71 anos e segue impetuoso em suas criações. Saído de uma infância simples na praia da Armação, ao norte do arquipélago, atualmente o artista possui obras em importantes museus e pinacotecas fora do país, como o Museu Nacional do Chile.

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Primeiro filho de uma família com a arte no sangue e natural de uma ilha cercada de mistérios e lendas mágicas, que incluem piratas, naufrágios trágicos e tesouros escondidos, Giba traz para primeira fase de sua obra todo esse universo místico e ao mesmo tempo real da dura rotina caiçara. Criado em uma comunidade de imigrantes japoneses, Giba mescla influências da tradicional salga do peixe, da pesca artesanal e da cultura messiânica que ensina o respeito ao cultivo e ao alimento; os ensinamento da infância também passam pela ancestralidade indígena da mãe, à exemplo da confecção de redes, cestarias, imponentes canoas de voga e do manuseio impecável do barro.

Nessa época de escola, Giba já despontava seu talento artístico. Ganhou seu primeiro prêmio de desenho aos 12 anos e aos 17 foi vencedor de um concurso para definir o brasão da escola. Hoje, 54 anos depois, a imagem do golfinho com um livro ainda é o emblema oficial do grupo escolar Gabriel Ribeiro dos Santos. Foi ainda um dos pioneiros a dançar na tradicional Congada de São Benedito, manifestação cultural considerada patrimômonio do arquipélago.

E esse é só o começo da história. Depois de trabalhar como pescador, plantar na roça, ser jardineiro e office boy, Giba saiu pelo mundo. Inicialmente foi de Ilhabela para a fervorosa Praça da República dos anos 1960 e 1970, na capital paulista. Lá consolidou seu contato com o meio artístico e começou a viver exclusivamente de sua arte. Foi também onde conheceu seu mentor, o consagrado pintor basco Fernando Odriozola, que definiu influências decisivas para a consolidação de sua técnica e da sua atual fase de trabalho.

Os dois também conviveram em Ilhabela. Iam e vinham da capital ao litoral passando por ateliês, exposições e salões. Fundaram o primeiro movimento cultural do município, em 1967, quando nasceu o ateliê coletivo que se tornou referência regional e berço para o tradicional salão de artes Waldemar Belisário, que completa 42 anos em 2019.

O clásico salão de Ilhabela é um dos mais antigos do Brasil e leva o nome do pintor italiano Waldemar Belisário. Uma referência das artes, ele era irmão de criação de Tarsila do Amaral e conviveu com ninguém menos que Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Pagu e Anita Malfati. No meio Modernista criou seu estilo e influenciou uma geração de artistas caiçaras, como Giba, que conviveu em sua casa e teve aulas com sua esposa Celina Guimarães.

As histórias de Giba ultrapassam o Estado e chegam ao Nordeste. Hoje, suas criações mais recentes possuem diversas influências da cultura de cordel e das paisagens sedutoras da natureza e das ruas nordestinas. Mora atualmente em Fortaleza, onde chegou através de suas aventuras pelo tradicional bairro do Bexiga, em São Paulo. Foi lá que conheceu sua quarta companheira e mãe de seu único filho. O amor que nasceu na roda de samba os levou para a terra natal da ex-esposa. Quando o menino Eros Pinna tinha seis meses, foram para a capital cearense a pedido do avô que queria muito conhecê-lo e, em uma história trágica e bela, pegou o neto nos braços e morreu horas depois.

Anos depois, com o desastre do confisco no governo do ex-presidente Fernando Collor, Giba perdeu todas as suas economias adquiridas com a arte ao longo dos anos. A situação ficou difícil e ele voltou para Ilhabela, onde construiu sua casa própria e viveu até 2005. Neste mesmo ano voltou para Fortaleza e passou atuar em comunidades carentes ensinando pintura. Lá também foi homenageado algumas vezes e entrou de vez para a cúpula da arte cearense.

Hoje, seu filho Eros tem 34 anos e segue os passos do pai. Pintor de talento nato, é responsável pela organização e curadoria da exposição em homenagem aos 50 anos de carreira do pai. A família escolheu Ilhabela para fazer a homenagem à trajetória artística que ali nasceu. A mostra “50 anos fazendo Arte” saiu do papel, mas não foi simples.

A exemplo de muitos artistas reconhecidos fora de casa ou até mesmo apenas após a morte, Giba enfrentou problemas burocráticos sem fim para concretizar a exposição. Imaginando que seria a coisa mais natural realizar esse projeto em sua terra natal, as tratativas começaram em 2018, quando os 50 anos de carreira completaram, mas o projeto só aconteceu no fim de abril de 2019.

A exposição foi um sucesso e permitiu que muitas pessoas novas conhecessem um pouco dessa história de lutas e glórias. Para quem foi, valeu muito a pena se deliciar com as cores e traços contundentes que marcam uma trajetória de reconhecimento. Reconhecimento cabal e sutil ao mesmo tempo, pois se dá entre os que realmente entendem de arte. Cabal e sutil bem como o efeito da própria arte.

Algumas das obras criadas especialmente para aexposição “50 Anos Fazendo Arte”

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