foto em foco: 19J Fora Bolsonaro em Ilhabela

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foto em foco: 19J Fora Bolsonaro em Ilhabela

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Hoje, cai de desespero em desespero, cingida de demônios, cobrindo um dos olhos com a mão e cravando o outro num quadro horroroso. Quando alcançará o fundo do abismo? Quando raiará, em meio à derradeira desolação, um milagre superior a qualquer fé, a luz da esperança? Um homem solitário junta as mãos e diz: “que Deus tenha misericórdia de vossas pobres almas, meu amigo, minha pátria!”

Esse não é discurso emocionado de político, pároco, cientista, artista, influenciador virtual ou cidadão comum pobre coitado; são as orações finais do romance Doutor Fausto, de Thomas Mann. É a voz agoniada do narrador do livro, Serenus Zeitblom, doutor em filosofia. Fala da Alemanha se despedaçando no fim da segunda guerra mundial.

Hoje, o Brasil rompe a barreira sinistra das quinhentas mil mortes.

Hoje, pelo Brasil inteiro, fervilham atos de Fora Bolsonaro, dando nome e imputando responsabilidade àquele que surgiu envergando a bandeira da mudança, da nova política.

Uma antiga foto em foco bem alertava sobre o risco dessa mudança:

A boa política deve desarmar e não armar as pessoas. A boa política deve unir e não desunir. A boa política deve estimular o amor e não o ódio. A boa política deve reverenciar a cultura e não apequená-la.

Incisiva, partidária ao olhar tosco e virulento de muitos, concluía que a escolha que então se fazia deveria ser:

Uma escolha que sim nos mantenha respeitando nossas diferenças e com liberdade para expressá-las. Uma escolha que sim nos afaste do rancor e nos aproxime da tolerância. Uma escolha que sim nos faça alegres, não tristes.

A coluna não tem bola de cristal e não pôde prever que mais que tristes, estaríamos todos doentes; uns, tomados pela desesperança; outros, pela indiferença; os demais, pelo arrivismo. E vários de nós, meio milhão, mortos.

A escolha feita abriu os portões do inferno e tal qual a Alemanha do Doutor Fausto, o Brasil, cruelmente golpeado pela incúria, pela ignorância, pela maldade, pelo ódio, se arruína a ponto do ministro posto ipiranga sugerir que os pobres se alimentem dos restos daqueles que se fartam em demasia que nem nobres senhores medievais lançando, enfastiados, migalhas da sua farta mesa aos seus esfomeados esmolambados servos curvados aos seus pés.

Foto de gente sempre foi o foco da foto em foco. E esta coluna que baterá o recorde de fotos postadas vai exibi-las, pois, em abundância.

Mas faz isso com desgosto porque essas fotos revelam, incontestavelmente, que o país se tornou triste.

Essa passeata de ilhabelenses é uma passeata de pessoas infelizes; de pessoas revoltadas. Ainda que ela tenha sido encabeçada pela batida eletrizante do grupo de maracatu Batuki Kianda.

Que essa tristeza de tantos, tristeza também por tantos que estão mortos quando vivos deveriam estar, tenha energia para, não como a prece do compungido devoto solitário citado pelo doutor Serenus no Doutor Fausto, se conformar com a tragédia, mas feito o super-homem da canção do Gil, por amor, mudar o curso da história.

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Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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