No segundo semestre de 2018 uma grande coletiva de artes visuais, a “Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” no Santander Cultural em Porto Alegre e a perfomance  “la bette” no Museu de Arte Moderna de São Paulo foram achincalhadas por grupos conservadores e reacionários em movimento histérico e vitorioso a ponto dos dois eventos terem sido empastelados.

A maioria das pessoas que integrou esses grupos que tamanho alarde e projeção conseguiu na imprensa jamais entrou num museu ou galeria. Mortificados por princípios éticos retrógrados e obscurantistas eram analfabetos da linguagem visual, desinformados da história da arte e surdos à comunicação peculiar da produção artística contemporânea.

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Desfraldando bandeiras pela defesa da família, dos bons costumes e contra obras questionadoras de gênero e inserção social, as conspurcaram como os nazistas fizeram no passado com as obras dos artistas de vanguarda da época, impingindo-lhes a injúria de “arte degenerada”. E triunfaram, para a vergonha nacional.

Essa gente hoje diz petulante o que nos convém ver. Gente como o bispo Marcelo Crivella, o patético prefeito de um Rio de Janeiro em escombros que brandindo o seu dedo indicador em ato de impedimento sarcástico arrostou nas redes sociais: “Qeermuseu no museu de arte do rio, naaaaão! “.

Essa gente hoje destrói açodadamente a cultura brasileira por eles enxergada como comunista, apesar de comunistas não existirem há mais de três décadas, desde pelo menos a icônica derrubada do muro de Berlim. Sua virulência ignóbil investe contra a lei Rouanet e o sistema S: SESC e SESI, notórios pela alta qualidade dos acontecimentos culturais e artísticos que sediam. Corta fundo a verba da educação e da cultura. Propaga em altos e histriônicos brados que artistas são chupins do dinheiro público e assim inviabiliza a criação e veiculação de arte a cargo de instituições estatais como a Caixa Cultural, Banco do Brasil, FUNARTE, Correios e congêneres e centenas de empresas privadas que se apoiavam nessa lei de incentivo. É um certeiro soco no fígado perceber o que se está escolhendo construir no lugar das ruínas. O autoritarismo, a homofobia, o racismo, a exclusão social, o anticientificismo, a xenofobia, o anti-intelectualismo, a misoginia, a teocracia e por aí vamos e nos perdemos todos. Ou quase todos. É Eliane Brum, em texto antológico, – “Cem dias sob o domínio dos perversos” – https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/10/opinion/1554907780_837463.html – quem nos ilumina: “A arte é também um instrumento poderoso. Não foi por outro motivo que ela foi tachada de “pornográfica” e “pedófila” pelas milícias da internet nos últimos anos. Não é por outro motivo que o bolsonarismo investe contra a lei Rouanet e desmonta os mecanismos culturais. A arte não é firula. Ela tira as pessoas do lugar. Ela faz pensar. Ela questiona o poder. E ela junta os diferentes.”

Uma grande reunião de “diferentes” aconteceu semana passada em Ilhabela. Atores, diretores de teatro, artistas plásticos, artistas de rua, artistas circenses, poetas, escritores, cineastas, historiadores, cartunistas, fotógrafos, compositores, músicos; enfim, produtores culturais se encontraram, conversaram, debateram, polemizaram e se emocionaram no 1º Encontro de Cultura de Ilhabela – mapeamento e diretrizes para uma política cultural abrangente.

O filme que o apresenta, – https://www.facebook.com/forumpopulardeculturadeilhabela/videos/2340916699526190/– da Salga Filmes, é um manifesto dos artistas de Ilhabela e é peça brilhante que merece ser vista e revista várias vezes. “Precisamos de formação contínua para poder transmitir conhecimento e devolver através da nossa arte, aquilo que recebemos” – esse apelo modesto, ponto alto do vídeo, é um pedido humilde e mais do que nunca, urgente, para que a sociedade insular, reconheça a importância da sua arte e a auxilie na difusão dos valores mais caros à preservação da civilidade. Solidariedade, integridade, respeito às diferenças, apologia do diálogo e da não violência, defesa da inteligência e da cultura; tudo o que verdadeiramente necessitamos para evitar que a barbárie aniquile nossa capacidade de sermos humanos.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio é artista plástico, trabalhando com desenho, gravura, pintura e fotografia. Fez trinta e sete individuais, cinco delas no exterior. Participou de mais de uma centena de certames internacionais de gravura e foi premiado na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières ( Canadá ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 11ª Bienal de San Juan del Grabado Latinoamericano y del Caribe ( Porto Rico ), na 3rd International Biennial Racibórz 2000 Poland ( Polônia ), na The 3rd International Mini Print Cluj-Napoca ( Romênia ), no 3º Concurso Internacional de Mini Grabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na 5ª Bienal Nacional de Grabado en Relieve – 1ª Iberoamericana XYLON Argentina, na III Bienal Argentina de Gráfica Latinoamericana 2004, na 1st International Small Engraving Salon Inter-Grabado 2005 ( Uruguai ), na 2ª e na 3ª Muestra Internacional de Miniprint en Rosário ( Argentina ). No Brasil foi premiado em quarenta e cinco ocasiões, entre elas, no 10° Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 3º Salão Victor Meirelles, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, na II Bienal da Gravura, no 2º Salão SESC de Gravura, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na 4ª Bienal de Gravura de Santo André, na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e premiado nos Programas de Ação Cultural do governo do estado de São Paulo – ProAcs Edital de 2008, 2010 e 2011 e ProAc ICMS de 2013.

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