Por Márcio Pannunzio

A imagem que ilustra a Foto em Foco desta semana bem que poderia figurar como uma das apregoadas mil maravilhas dum novo slogan insular: “uma ilha: mil maravilhas”. Nessa nossa era de desfraldar bandeiras com beato devotamento, vê-las coloridas tremulando ao vento é maravilha para essa gente deslumbrada com brasões.

Na foto destaque as vemos bailando com o céu azul enevoado ao fundo. Destaca-se, é claro, a bandeira do Brasil, verde e amarela. Todavia, chama nossa atenção em primeiro plano, uma outra tímida até por ser bem menor e até por nem poder ser em verdade considerada um estandarte. Em vermelho vivo, vermelho sangue, ela grita.

Mas seu grito é ignorado pelos banhistas que se refrescam no mar. Eles são tantos… Pena que o Hospital Mário Covas ainda não foi ampliado. Tivesse já sido, e melhor atendimento teria esse povo atormentado por doenças de pele e outras piores pelo contato e pela ingestão d’água contaminada por coliforme fecais, ou traduzindo para todo meio entendedor bem entender apesar da deselegância do dizer: água com merda.

Poderia esse acepipe (a água com merda), juntamente com as flâmulas vermelhas que vêm adornando praias do arquipélago nos últimos tempos, ser contabilizado como mais uma das “mil maravilhas de Ilhabela”?

Dezenove praias com a bandeira vermelha da CETESB; ou seja, todas, todas as praias monitoradas pela companhia classificadas como inadequadas para banho. Dezenove praias impróprias, muito embora os turistas e a gente da Ilha que nelas se banhava pouco se importasse com o alerta sanguíneo encimado no mastro no meio de cada uma dessas praias poluídas.

Poderia esse recorde histórico – todas as praias insalubres – nota dez de emporcalhamento, ser capitalizado também como uma das mil maravilhas apregoadas pela publicidade oficial?

Aparentemente, não, dada a rapidez com que as autoridades vieram a público tirar o corpo fora. “-Foi a chuva”. E assim culparam com religioso zelo São Pedro pelo feito que viralizou notícia trazendo grande notoriedade a Ilhabela. Faz sentido? Faria se tudo quanto é praia que toma chuva ficasse igualmente maculada. Como isso não acontece, a culpa não é da chuva, mas sim da merda que ela lavou no caminho até o mar. E como essa merda, evidentemente, não caiu do céu, não foi cagada por santo nenhum, ela é mesmo merda terrena, merda insular.

Poderia essa merda ilhabelense entrar no conjunto das mil maravilhas? Essa é uma pergunta oportuna para a agência de publicidade que cuida de tão bem promover “Ilhabela vida natural”. Com a engenhosidade desses publicitários até merda vira maravilha como maravilhas eles se esforçaram por fazer ser a excruciante fila da balsa, o trânsito caótico, a falta d’água, os apagões, a roubalheira do comércio, a devastação da natureza, a feiura urbana e por aí vai que a lista é longa e há sempre novo item para alongá-la ainda mais.

Quem anda a pé pela cidade não se refugiando no ar condicionado de Range Rover ou similares, bem sabe que pela ilha o serviço de zeladoria é falho. As calçadas são pistas de obstáculos e aquelas da orla ainda agregam o poder de escolhermos entre sermos atropelados por ciclistas ensandecidos de um lado ou por motoristas bêbados de outro. As praças são indigentes; bancos quebrados, calçamento estragado, brinquedos e equipamentos de ginástica sem manutenção que preste, paisagismo medíocre, inexistente. Há erva daninha crescendo por tudo quanto é canto. Há lixo poluindo qualquer paisagem: garrafas de plástico, copos descartáveis, invólucros de marmita, camisinhas, sacos de supermercado, bitucas de cigarro, cocô de cachorro, catarro, etc.

Pichações vão se sobrepondo umas sobre as outras criando camadas à espera de arqueólogos do futuro. Boa parte do que é inaugurado logo já mostra sinal de deterioração e vandalismo. A ponte estaiada na Barra Velha vai mudar o nome para ponte cai num cai tamanha é a degradação do piso de madeira e a imundície da estrutura metálica. Façam suas apostas para antecipar o dia em que os pedestres e ciclistas vão começar a despencar pelos buracos que não se aguentam mais de tanto reparo mal feito. Calçamento é trocado para que o antigo em bom estado seja no lixão descartado. Asfalto é derramado à larga impermeabilizando o solo. E mal acaba de ser despejado e vira logo colcha de retalho de tanto remendo em cima de remendo. Gasta-se à toa em obras inúteis, estapafúrdias que prontamente viram motivo de piada nas redes sociais como as recentes do “monumento Cristão”, R$ 31.023,59 e a do “Marco da Paz”, R$ 76.410,17. Gasta-se os tubos provendo infraestrutura para eventos e shows e pagamento de cachês milionários de músicos de tudo quanto é gênero musical. Imóveis particulares são desapropriados na casa dos milhões para serem incorporados ao patrimônio municipal sem proporcionar qualquer ganho para a população, como foi o caso da Fazenda Engenho D’Água comprada por mais de vinte milhões e mantida fechada. A folha do funcionalismo não para de crescer e se royalties não existissem, a receita do município inteiramente comprometida ficaria com o salário dos servidores, nada sobrando para os outros encargos, o que seguramente levaria as finanças municipais à falência e Ilhabela ao colapso. Quem vive nesse cenário dia após dia vai se acostumando e não estranha o fato das praias ficarem todas sujas. Afinal, com tanta coisa estabanada acontecendo por que haveria a maravilha maior (essa sim maravilha), a natureza insular, de passar incólume? Pensa que é desse jeito mesmo.

Porém, quem viaja e conhece cidades muito bem cuidadas apesar de não terem a enormidade de dinheiro que Ilhabela tem, descobre que, certo não pode ser. Elas são belas e estão limpas, com inclusive, as finanças em dia. Suas praças nos convidam a flanar. Suas calçadas são gostosas de andar. Nas paredes não há pichação. A cultura local é reverenciada, festejada. Faz bastante tempo que a rede de água e esgoto atende todo mundo. Há tranquilidade, civilidade, probidade; percebe-se a preocupação em fazer bem feito em cada pequeno detalhe. Existe efetivo orgulho em ser da terra e dela cuidar. Ali, ninguém teria o mau-caratismo de vandalizar o que quer que fosse como pela ilha corriqueiramente acontece, exemplo último, o das bicicletas amarelas destruídas. E pode por lá chover a cântaros que ainda assim os munícipes não seriam bosteados como foram os moradores e turistas em Ilhabela.

Tem quem retruque que rua limpa, praça aprazível, árvore sombreando a calçada onde se anda sem tropeçar, respeito à cultura são tudo frescura, coisa menor. Que o que importa é hospital escola emprego turismo ano inteiro obra muita obra novinha.

Mas o fato é que o diabo mora nos detalhes. Se não se consegue manter limpa e bonita a rua, será que se vai manter em bom funcionamento o hospital e a escola? Se a comunicação institucional se presta a maquiar o real, onde se encontrará informação crível? No jornalismo chapa-branca financiado por anúncio “Ilhabela vida natural” seguramente não. Se o sonho maior da vereança é ocupar secretaria municipal, numa dança de cadeiras interminável, quem exercerá o papel de fiscalizar? Se os moradores só cuidam da porta para dentro das suas casas, quem olhará pelo espaço público? Se os negócios da cidade só enxergam o próprio umbigo, como sobreviver ao impacto do turismo predatório? Pequenas coisas bem feitas estimulam fazer também as grandes bem feitas, contagiando o trabalho numa escala crescente que afugenta o desrespeito, o descaso, a imperícia. O bem feito salta aos olhos por sua materialidade benéfica e se incorpora à realidade com solidez; ele não precisa de publicidade para ser visto e valorizado.

Não erraria a agência de propaganda criadora daquelas aludidas e memoráveis peças em alcunhar Ilhabela como a “Ilha da fantasia”. Só fantasiando para ver o que não existe.

Merda demais. É isso o que verdadeiramente existe nessas dezenove praias de Ilhabela. E não é natural e muito menos maravilha.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio é artista plástico, trabalhando com desenho, gravura, pintura e fotografia. Fez trinta e sete individuais, cinco delas no exterior. Participou de mais de uma centena de certames internacionais de gravura e foi premiado na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières ( Canadá ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 11ª Bienal de San Juan del Grabado Latinoamericano y del Caribe ( Porto Rico ), na 3rd International Biennial Racibórz 2000 Poland ( Polônia ), na The 3rd International Mini Print Cluj-Napoca ( Romênia ), no 3º Concurso Internacional de Mini Grabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na 5ª Bienal Nacional de Grabado en Relieve – 1ª Iberoamericana XYLON Argentina, na III Bienal Argentina de Gráfica Latinoamericana 2004, na 1st International Small Engraving Salon Inter-Grabado 2005 ( Uruguai ), na 2ª e na 3ª Muestra Internacional de Miniprint en Rosário ( Argentina ). No Brasil foi premiado em quarenta e cinco ocasiões, entre elas, no 10° Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 3º Salão Victor Meirelles, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, na II Bienal da Gravura, no 2º Salão SESC de Gravura, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na 4ª Bienal de Gravura de Santo André, na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e premiado nos Programas de Ação Cultural do governo do estado de São Paulo – ProAcs Edital de 2008, 2010 e 2011 e ProAc ICMS de 2013.

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