FOTO EM FOCO: Vento Festival

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Marcio Pannunzio
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Num gélido e cinzento final de semana do início de setembro aconteceu o Vento Festival. Na Praça de Eventos de São Sebastião. Um local tão hostil quanto o clima friorento e úmido, agulhando a pele do rosto e das mãos, elas desprotegidas dos agasalhos e esfriando os pulmões. Quando a gente pensa em praça, pensa numa paisagem bucólica, com árvores, com bancos ao ar livre, de encostos confortáveis, como aqueles sinuosos de granilite, ostentado a propaganda dos seus patrocinadores, ou os de madeira e ferro, ainda mais antigos. Mas essa praça de eventos é sim um deserto urbanístico como o Largo da Batata em São Paulo e se houvesse lei que prestasse, os políticos e os urbanistas responsáveis por esses descalabros arquitetônicos que exterminam o pouco de civilidade que continua a resistir em nossas cidades, deveriam ser presos por décadas.

Mas a despeito do clima e do lugar, o Vento Festival foi um sucesso. De público e de conteúdo. Os artistas que se apresentaram eram músicos independentes brilhantes. Politizados e com um trabalho diferenciado, de alta qualidade musical e poética. Coisa que não se vê na TV e redes sociais, tão ciosas as duas de estimular a breguice e a idiotice.

Compartilhando o espaço dos shows, em um ambiente que estimulava e respeitava a diversidade, havia uma feira de produtos artesanais descolados, uma praça de alimentação bem sortida e sobrava lugar para exibição de arte com A maiúsculo, onde imperava soberano o xilogravador Rafael Cão.

Não dá para entender por que o Vento saiu da Ilha, que tinha muito mais a sua cara, principalmente por possibilitar que um dos seus mais queridos objetivos fosse atingido: o de comungar com a natureza. Na praia do Perequê, embaixo dos coqueiros, sob a luz da lua e das estrelas, hipnotizados pela calma marola do mar e com os pés se equilibrando na areia fofa, isso acontecia. Mas nesse inferno de concreto a embaralhar a vista sem a proteção de um único arbusto, comungar com natureza, só mesmo em delírio.

O Vento, além de atrair público afinado com a prática da sustentabilidade e que até talvez por isso se enquadraria no slogan “vida natural” papagaiado nas propagandas oficiais de Ilhabela, atrai também o olhar da imprensa que sabe nele reconhecer um festival de qualidade e que, portanto, merece figurar como boa notícia. É visceralmente democrático, acolhendo todos os credos religiosos e políticos e todos os gêneros sexuais. E é realmente gratuito, marcando relevante diferença com os gratuitos entre aspas de muito show de duvidoso gosto, para não dizer cruamente, show de mau gosto, que acontece em Ilhabela, de celebridades ou sub celebridades artificialmente criadas pela indústria, não do entretenimento, mas do emburrecimento. Cobrando cachê milionário pago à custa dos royalties do petróleo, que bem poderiam fazer melhor obra para os moradores da cidade enquanto ainda duram.

Por Márcio Pannunzio
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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio é artista plástico, trabalhando com desenho, gravura, pintura e fotografia. Fez trinta e sete individuais, cinco delas no exterior. Participou de mais de uma centena de certames internacionais de gravura e foi premiado na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières ( Canadá ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 11ª Bienal de San Juan del Grabado Latinoamericano y del Caribe ( Porto Rico ), na 3rd International Biennial Racibórz 2000 Poland ( Polônia ), na The 3rd International Mini Print Cluj-Napoca ( Romênia ), no 3º Concurso Internacional de Mini Grabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na 5ª Bienal Nacional de Grabado en Relieve – 1ª Iberoamericana XYLON Argentina, na III Bienal Argentina de Gráfica Latinoamericana 2004, na 1st International Small Engraving Salon Inter-Grabado 2005 ( Uruguai ), na 2ª e na 3ª Muestra Internacional de Miniprint en Rosário ( Argentina ). No Brasil foi premiado em quarenta e cinco ocasiões, entre elas, no 10° Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 3º Salão Victor Meirelles, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, na II Bienal da Gravura, no 2º Salão SESC de Gravura, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na 4ª Bienal de Gravura de Santo André, na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e premiado nos Programas de Ação Cultural do governo do estado de São Paulo – ProAcs Edital de 2008, 2010 e 2011 e ProAc ICMS de 2013.

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