FOTO EM FOCO: Cruzes santas

0
208

Nas estradas do interior são comuns as chamadas “cruzes santas”. Elas demarcam o local onde pessoas conhecidas da comunidade morreram em acidentes, geralmente, atropeladas. Terminam fazendo parte da própria geografia dos lugarejos e o povo se acostuma com elas, que passam então, a nem ser vistas.
Um dom da fotografia é o de tornar especial, extraordinário, aquilo que é tido como banal, sem encanto, sem luz.

A série br459km79.3 procura valer-se desse dom tão miraculoso da arte de fotografar ao lançar sua atenção sobre disparatados e singelos objetos de devoção postos ao pé de uma cruz santa.  Para apresentá-la, redigi o texto abaixo.

Havia uma estrada vicinal serpenteando entre as montanhas. Uma estreita faixa de asfalto sem acostamento, com trânsito sossegado, fluindo gota a gota por sucessivos túneis verdes: a copa das árvores se enlaçava no alto e onde elas eram baixas ou inexistiam, grandes rasgos de céu vertiam luz inundando as margens e as encostas próximas.

Num domingo antigo, duas pobres senhoras devotas caminhavam rente à estrada retornando da missa quando foram atropeladas por um caminhão desgovernado dirigido por um bêbado. Morreram ambas e no local, duas cruzes de concreto brancas foram fincadas na terra arroxeada e crua, donde toda erva foi diligentemente capinada; paralelas, miravam o asfalto, dele distantes uns cinco metros. Uma laje de concreto, de uns cinco centímetros de espessura, com uma área de menos de um metro quadrado, foi deitada rente ao chão em frente às cruzes.

Então, sobre essa rústica mesa pedregosa foram as pessoas simples do lugar ajeitando santos de gesso, estatuazinhas pagãs, terços, colares, cordas, flores de plástico e flores de verdade colhidas nos jardins e nos campos, numa profusão tamanha que, em pouco tempo, aquele pequeno espaço se fartou. E um quadro absolutamente caótico, grotesco, bizarro se materializou incendiando a paisagem. Uma diminuta obra coletiva, sempre em mutação, de celebração da morte e, paradoxalmente, também, de celebração da vida. Exposta às intempéries, enraizou-se na paisagem como monumento vivo. 

Para quem tiver curiosidade, existe um texto bem mais elaborado, escrito pelo poeta Henrique Marques Samyn – “da fotografia como celebração da vida”, que pode ser lido no link https://pt.slideshare.net/marciopannunzio/mrcio-pannunzio-br459km793-40044971

Por Márcio Pannunzio
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Quer conhecer todas as colunas Foto em Foco já
publicadas por Márcio Pannunzio no Nova Imprensa?
*Os direitos autorais das fotos da coluna Foto em Foco pertencem a Márcio Pannunzio. Desrespeitar o direito do autor é crime. Havendo interesse em usar qualquer fotografia da coluna para fins jornalísticos, institucionais, didáticos ou publicitários, entre em contato para negociar o devido licenciamento de uso de imagem: marciopann@gmail.com
  Conheça mais trabalhos de Márcio Pannunzio pelos sites: www.marciopan.art.brwww.marciopan.comwww.ilhabelaemfoco.com e www.retratararte.com. E aqui no Foto em Foco, toda semana uma diferente série fotográfica.

O que achou? Comente usando o Facebook

Matéria anteriorMarinha e Defesa Civil alertam para risco de ressaca no Litoral Norte
Próxima matériaCom custo de R$ 13 milhões, aeroporto de São José volta a operar em setembro
Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio é artista plástico, trabalhando com desenho, gravura, pintura e fotografia. Fez trinta e sete individuais, cinco delas no exterior. Participou de mais de uma centena de certames internacionais de gravura e foi premiado na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières ( Canadá ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 11ª Bienal de San Juan del Grabado Latinoamericano y del Caribe ( Porto Rico ), na 3rd International Biennial Racibórz 2000 Poland ( Polônia ), na The 3rd International Mini Print Cluj-Napoca ( Romênia ), no 3º Concurso Internacional de Mini Grabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na 5ª Bienal Nacional de Grabado en Relieve – 1ª Iberoamericana XYLON Argentina, na III Bienal Argentina de Gráfica Latinoamericana 2004, na 1st International Small Engraving Salon Inter-Grabado 2005 ( Uruguai ), na 2ª e na 3ª Muestra Internacional de Miniprint en Rosário ( Argentina ). No Brasil foi premiado em quarenta e cinco ocasiões, entre elas, no 10° Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 3º Salão Victor Meirelles, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, na II Bienal da Gravura, no 2º Salão SESC de Gravura, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na 4ª Bienal de Gravura de Santo André, na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e premiado nos Programas de Ação Cultural do governo do estado de São Paulo – ProAcs Edital de 2008, 2010 e 2011 e ProAc ICMS de 2013.

DEIXAR UM COMENTÁRIO

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, informe seu nome aqui