FOTO EM FOCO: Rodízio de carros na Ilha


A polêmica da hora é sobre o rodízio de carros na Ilha. Originalmente, seria apresentado na Câmara um projeto propondo essa Lei no desejo de limitar os congestionamentos da temporada. Diante das reações negativas, malogrou sem ter nascido.

É comportamento cartorial dos legisladores criar dificuldades ao invés de estimular facilidades. Seria patético o turista ou morador que voltasse de viagem aportar na Ilha logo no dia da restrição da placa do seu carro para ser imediatamente multado.

É estranho, é realmente contraditório que se penalize justamente aquilo que carreia extraordinária receita para os cofres da prefeitura de Ilhabela, porque são os festejados royaties do petróleo, a ora demonizada energia motriz dos carros, que proporcionam uma gastança nababesca a pavimentar tudo o que já estava antes calçado; a pagar cachês milionários para músicos estrelados da moda e outros nem tanto; a contratar três ou mais pessoas para executarem a mesma tarefa nas abarrotadas repartições municipais; a comprar esculturas e mais esculturas da mesma lavra por valor que cobriria com folga o custo inteiro da saudosa proposta do Parque Escultórico de São Sebastião - sessenta obras monumentais de renomados artistas; a desapropriar belos imóveis coloniais interditando-os ao público logo em seguida, como é o caso da Fazenda Engenho d'Água e o da Casa da Princesa, esta última destinada apenas ao deleite da Câmara Municipal que haverá de lograr a aprovação de leis tão criativas e oportunas quanto essa aí natimorta.

A gritaria contra a Lei partiu de tudo quanto é lado; inclusive, dos ecologistas de plantão que não se melindram de se transportarem solitários de uma esquina à outra em Land Rovers do ano de mais de uma tonelada fedendo seu caminho todo com a tóxica fumaça do diesel e dos empresários e comerciantes que não se importam com a ação deletéria do turismo predatório desde que ela lhes garanta boa lucratividade. Foi então lembrado o "Plano de Mobilidade Urbana" que deve jazer imóvel e natimorto ele também, nalguma perdida gaveta burocrática.

A ideia desse plano seria estimular transportes alternativos, como por exemplo, andar a pé. O que é bastante complicado diante das calçadas da cidade, isso, quando elas existem. As feitas modernosas mal permitem a passagem de duas pessoas lado a lado e em muitos trechos, ensanduichadas entre o trânsito barulhento e fumarento e o vai e vem de ciclistas alucinados. Existissem boas calçadas e talvez ilhéus e turistas se animassem a nelas andar. No entanto, andariam num labirinto de gigantescos muros, boa parte deles, pixados, encimados por arame farpado ou cercas elétricas e aí, é bem capaz que não se sentissem tão à vontade e preferissem mesmo correr bem ligeiros para dentro de seus carros de vidros escuros.

A beleza visual é o maior incentivo para quem anda a pé. Ela é farta nas trilhas na mata, nas praias, nas cachoeiras mas, na malha viária, está ausente. Belos e inspiradores exemplares da arquitetura colonial, art nouveau ou eclética foram todos demolidos e o que foi construído encima é pavoroso: casamatas em vez de casas que se abram com prazer e orgulho para a rua. Casamatas onde se esconde gente amedrontada, de costas para o passeio público, de costas para o convívio civilizado, preferindo olhar paredes emboloradas a se deparar com seus  iguais.

Não se sabe aonde andam os arquitetos e urbanistas de talento que poderiam mudar esse quadro lastimável estimulando a edificação de moradias em que a sensível poesia das fachadas deleite a visão dos passantes. Os cidadãos mais abonados se encastelam em condomínios fechados, verdadeiros enclaves no tecido urbano que se assemelham a tumores em organismos doentes e onde os raros caminhantes se assustam e se enervam com o berreiro ofensivo e onipresente da cachorrada.

Caminhar a sol a pino seria inevitável porque não existem árvores que sombreiem os trajetos; elas existem somente na mata, nas ruas, não. Parece que a preferência dos paisagistas municipais é por desmilinguidas palmeiras exóticas de vida breve apesar da vizinha Mata Atlântica ter uma profusão de plantas que bem se prestariam a embelezar os jardins urbanos. Vale aqui incrementar a pergunta anterior, incluindo os paisagistas de talento que poderiam melhorar essa situação trabalhando com criatividade.

Os especuladores do mercado imobiliário têm dinheiro, mas não têm o que mais conta, a cultura arquitetônica e assim infestam a Avenida Princesa Isabel com prédios pesados, quadrados, sem ornamentos, sem leveza e originalidade, fecundos exemplares de uma arquitetura desalmada e indigente. O poder público não fornece exemplos melhores. Basta lembrar do Fórum Caixa Forte do tio Patinhas ou da Prefeitura Palácio Sauna de Aço & Cristal.

Outros meios de transporte? Há caríssimas lanchas que se destinavam ao transporte aquaviário falecendo degradadas no canal. Transporte coletivo, só por ônibus ou táxis; não são permitidos outros veículos de natureza jovial como jardineiras ou tuk-tuks. E bicicletas para alugar com facilidade e a preços justos, não há.

Pois então, para quem pode e não carece de queimar a cachola ao ar livre tropeçando nas calçadas precárias e estreitas para se proteger de atropelamento visual, auditivo, olfativo, respiratório e físico, o jeito é dormitar no ar condicionado do carro particular refém do congestionamento enquanto o rodízio não vem.

E para ilustrar a coluna, fotos de carros e da balsa que os transporta.

Por Márcio Pannunzio
















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