FOTO EM FOCO: Congada & outros assuntos


Mais uma congada aconteceu, dando continuidade a uma tradição de mais de duzentos anos. E essa foi atípica. Reza a lenda que nunca chove na congada; alguns lembram da prática de, em dia chuvoso, o padre colocar o São Benedito na porta da igreja para espantar o perigo de aguaceiro. Pois no domingo à tarde, no último dos bailes, caiu água; os congueiros se molharam e o rei precisou recorrer ao guarda-chuva.

Como é comum, houve bastante discurso inflamado, sanguíneo e vamos refletir sobre o conteúdo de alguns deles, principalmente, os mais contundentes. É certo que não são a expressão do pensamento de todos os participantes pois, em todo grupo social, há de existir quem advogue posição diversa. Porém, a retórica oficial esteve a serviço de propagandear um mundo antigo idílico contrastando para pior com o atual, onde os "de fora" colocam em risco as tradições devido, por exemplo, a se oporem à queima de fogos barulhentos. Os defensores dessa causa teriam chegado ao desplante de criar um abaixo assinado para ser encaminhado à câmara municipal da ilha, pedindo a proibição do barulho; só permitindo fogos silenciosos.

É chato dizer, mas a ideia de um "passado cor de rosa" é furada. Não vamos tão longe no tempo, vamos ficar só na derrocada do café, primeiras décadas do século passado, para nos recordar que eram tempos de decadência, com a população da ilha diminuindo; os caiçaras daqui se mudando para o continente e os poucos que ficaram, vivendo em grande dificuldade e pobreza. A expectativa de vida estacionava nos quarenta anos e quem aqui nascia não vislumbrava bom futuro. Era tudo indigente, precário: educação, saúde, cultura.

Hoje o quadro é outro e os "de fora" contribuíram para mudá-lo. Eles ajudaram a construir, para o bem e para o mal, a Ilha que existe hoje e não há como não aceitar que ela é muito mais pujante que aquela do passado. Sem dúvida, ela poderá ser ainda melhor, mas precisamos reconhecer o mérito dessa gente "de fora" que também nos presenteou com a rica cultura dos seus locais de origem.  Em nome da própria cultura, convém prestar atenção para a significação da palavra "caiçara". Antonio Carlos Sant Ana Diegues, em "Pescadores, Camponeses e Trabalhadores do Mar", publicado pela Editora Ática, 1983, nos conta que a palavra tornou-se o nome atribuído a todos os indivíduos e comunidades do litoral dos Estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. Dessa forma, mesmo o turista recém mudado para a ilha, pode sim, ser chamado de caiçara. Assim, a distinção entre os "de dentro" e os "de fora", não tem vez.

E com o status de caiçara, por que não poderia o novo morador opinar em sua nova comunidade? Ou pode desde que não vá contra a "tradição"?

Outra vez, mais uma ideia furada. Pensar que a tradição é ente estático é besteira. Se fosse assim, em nome da tradição, continuaríamos canibais. Mudamos para buscar melhorar porque afinal, ninguém, em sã consciência, muda para piorar. É verdade que nem sempre acertamos.

Por isso a proposta de proibir os fogos é boa, sim. A gente deve tirar o olho do umbigo e olhar ao redor. A barulhada dos fogos não incomoda só "os de fora" mas também os de "dentro", principalmente aqueles que sempre foram, realmente, "de dentro". Todos que pertencem à rica fauna insular e sofrem barbaridade com as explosões de decibéis. E se houver quem ache que é frescura, vamos passar então a argumentar onde o calo dói: no bolso. É, literalmente, um tiro no pé, ou melhor troçando, rojão no pé, causar tão grande dano a essa bicharada.

O turista que vem para a Ilha - e hoje é consenso que nossa fonte principal de arrecadação é o turismo, não vem por causa da nossa bela arquitetura colonial e eclética, pois foi tudo demolido e o que foi construído em cima é feio de doer. Não vem pela nossa cultura singular, porque no calendário, ela só ocupa uma semana inteira, a semana da cultura caiçara; como também só ocupa uma semana a principal competição de vela que inspirou chamar a Ilha de "Capital da Vela".

Ele vem para ver nossa paisagem natural ainda intocada com todos os seus simpáticos bichinhos ao alcance do olhar embevecido: maritacas, papagaios, tucanos, caxinguelês ... , a lista é grande. São eles que devem continuar sofrendo em nome da "tradição"?

Sem contar que boa parte dos turistas procura vir para um local tranquilo, sem a barulheira onipresente que tomou conta das grandes cidades. É justo recepcioná-los com um foguetório do quinto dos infernos como há pouco se fazia com cada navio de cruzeiro que aportava na vila?

Bom, deu para perceber de que lado a Foto em Foco está. Quem concordar, pode dar seu apoio à causa assinando a petição no link: http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR86111

P.S. A coluna desta semana ficou comprida e vai encompridar um pouquinho mais. Peço paciência para os meus estimados "cinco leitores", mas até em função do próprio nome - Foto em Foco, ela não poderia deixar passar batido um concurso de fotografia promovido pelo Shopping  Serramar.

Todo concurso que estimule a prática e a difusão da fotografia, respeitando e valorizando os seus participantes, é bem-vindo. No entanto, lendo o regulamento deste aqui, percebe-se que quem na verdade ganha e ganha muito é o promotor e não os concorrentes. Quem participar deve concordar em ceder gratuitamente o uso das suas fotos para essa campanha de agora em todo o território nacional por tempo indeterminado. Ou seja, para sempre.

Uma única foto, se fosse remunerada obedecendo o valor da tabela de referência da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos no Estado de São Paulo, valeria, numa campanha publicitária em meia página de revista, R$ 1.581,85; uma página, R$ 2.282,06; página dupla, R$ 3.423,09 e em outdoor, R$ 7.025,00.

Contudo, os selecionados poderão ter suas fotos (bem mais que uma única foto) impressas em material promocional, quer dizer, publicitário, no Brasil inteiro sem ganhar absolutamente nada. Aliás, vão ganhar sim: como prêmio, expor no Shopping ... E olhem que isso quem diz é o próprio regulamento.

Já o vencedor da melhor foto da exposição escolhida pelo público, receberá um kit com artigos de algumas lojas. Que o regulamento nem especifica quais serão e o valor. Dá para ficar imaginando o que poderia vir no kit: "saco de pipoca, nhá benta, mac lanche feliz..."

Caso alguém de vocês "cinco" se interesse, pode conferir o ensaio fotográfico completo da congada, basta clicar aqui.


Por Márcio Pannunzio






















*Os direitos autorais das fotos da coluna Foto em Foco pertencem a Márcio Pannunzio. Desrespeitar o direito do autor é crime. Havendo interesse em usar qualquer fotografia da coluna para fins jornalísticos, institucionais, didáticos ou publicitários, entre em contato para negociar o devido licenciamento de uso de imagem: marciopann@gmail.com


  Conheça mais trabalhos de Márcio Pannunzio pelos sites: www.marciopan.art.br, www.marciopan.com, www.ilhabelaemfoco.com e www.retratararte.com. E aqui no Foto em Foco, toda semana uma diferente série fotográfica.
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