FOCO EM FOCO: Batuki Kianda


O Batuki Kianda é um grupo de maracatu de Ilhabela. Originou-se a partir de uma oficina de maracatu ministrada na Ilha, no ano passado, por Rafael Marotti, artista plástico, músico e agitador cultural. Apesar de novo, vem participando da vida cultural insular com frequência. Sua última apresentação aconteceu durante o Festival Ilhabela Instrumental.

O maracatu é parente da congada e nasceu em Pernambuco; é pois, brasileiro. É difícil defini-lo. É representação; é dança; é música. Felipe Spiritus, participante do grupo, conta que o Batuki Kianda propõe uma reflexão sobre a história de opressão dos negros, sobre o racismo na nossa cultura. Ressalta que Ilhabela foi um importante porto de chegada dos navios negreiros. Seus engenhos foram movidos a força escrava. As palavras "batuki" e "kianda" pertencem ao dialeto banto, africano. "Kianda" refere-se à sereias ou iaras, que poderiam ser do mar ou de cachoeiras. Assim, o nome "batuki kianda" veicula um rico imaginário de lendas sobre seres míticos, a par de brincar com a ideia de um batuque em movimento.

A grande beleza do maracatu reside no fato dele acontecer tendo como palco, a rua. Como na congada, seus membros dançam e cantam pela rua. Tomam, portanto, a cidade como lugar da sua atuação e a tornam protagonista. Esse feito, tem um caráter libertador porque agora nossas cidades foram destruídas pela veneração ao carro particular e seu ilusório status, pela segregação econômica e pela arquitetura do medo.

Ilhabela foi uma cidade de muros baixos ou mesmo, cidade sem muros, no passado de edificações coloniais e ecléticas que não deixaram legado visível. As que embelezavam o espaço urbano, que comungavam sua vida com ele sem receio, foram todas demolidas e aquilo que se erigiu sobre os seus escombros não tem nada de bom para nos contar. Hoje, as pessoas que caminham por suas ruas, o fazem por labirintos de sucessivos muros gigantescos, aparatados com cercas elétricas e arames farpados como aqueles usados nos famigerados campos de concentração e nos campos de extermínio. A arquitetura do medo constrói obras sem qualquer encanto, sem nenhum ornamento, sem história que preste. Os prédios comerciais são construções stalinistas - feitas sem imaginação, sem criatividade, com o aval de arquitetos ou engenheiros medíocres; as casas são presídios onde se escondem famílias assustadas, sem amor pela cidade onde residem. A rua é terra de ninguém. E ela é por isso cada vez mais feia e indigente, apesar de nossas praias e matas serem tão belas.

Então, quando as pessoas tomam essas tristes ruas e o fazem em frenesi, cantando e dançando sob o ritmo de uma percussão estonteante, é como se por um curto instante, a cidade fosse resgatada do limbo e voltasse a brilhar, dançando e cantando junto com elas, rompendo as amarras que a aviltam e a vilanizam. Por um efêmero momento, parece que as barreiras sociais, culturais, religiosas, políticas entre seus habitantes foram esquecidas e todos se tornaram irmãos, espectadores e também participantes de um eletrizante espetáculo de confraternização entre as pessoas celebrando a vida.


Por Márcio Pannunzio



















Veja o ensaio fotográfico completo visitando o link 
http://www.ilhabelaemfoco.com/cortejo-do-maracatu-batuki-kianda

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