FOTO EM FOCO: Selfies


Antes da revolução da fotografia digital, fazer autorretratos - hoje as populares selfies - era complicado. As câmeras analógicas tinham um temporizador para atrasar o disparo. Era preciso acioná-lo e correr para a frente da objetiva numa distância em que o foco ficasse bom. A maior parte dos temporizadores era mecânico, funcionando com mola, e por isso faziam um barulhinho inconfundível. Nessa época, ninguém se preocupava em se autorretratar. O comum era ir às lojas de fotografia para fazer foto 3x4, minúsculas, meia dúzia, no máximo, buscando no dia seguinte ao de ter sido fotografado, sempre na clássica pose: queixo para cima, olhos bem abertos encarando o horizonte, ombros levantados...

Eram fotos em preto e branco, usadas para documento. De brinde, algumas lojas davam um chaveiro com uma das pequeninas fotos encartadas em uma moldura de plástico.

A cena ora corrente é deparar-se a todo instante com as pessoas tirando selfies. Fala-se que isso é sinal de protagonismo. Todos teriam o seu lugar ao sol; no caso, nas redes sociais. A febre da selfie é tão intensa que seus praticantes se alienam do lugar aonde estão e deixam de interagir com gente real, de carne e osso. Não percebem o seu entorno. Por ser virtual, esse protagonismo carece de materialidade. E é um estímulo para que as cidades vão se transformando em desertos de gente.

Muros altos escondem as casas. Condomínios fechados criam guetos no esclerosado tecido urbano. Os carros, enormes, são inescrutáveis. Não se consegue enxergar quem neles se locomove: os vidros negros tudo ocultam.

Não há mais quem olhe olho no olho e diga ao caminhar em local público quando cruzar com o outro: bom dia, boa tarde, boa noite.

A Foto em Foco desta semana toma como tema a selfie e o trata à moda antiga, no insuperável preto e branco, como eram as inesquecíveis e delicadas fotos 3x4. Num tempo em que as casas tinham muros baixos quando os tinham e então os moradores se sentavam em cadeiras por eles displicentemente postas na calçada e conversavam fiado sem nenhuma pressa com os vizinhos e os transeuntes; os carros tinham vidros transparentes e se conseguia ver sem esforço quem neles estava. Não existia a agora ditatorial urgência de marcar presença em um campo tão intangível como o é o das redes sociais porque todo mundo se sentia alguém.

Por Márcio Pannunzio














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